NEWSLETTER FMDUP nº02/2019

Edição especial
"Mulheres na Medicina Dentária"

A FMDUP decidiu participar no ciclo “E Contudo, Elas Movem-se! Mulheres nas Artes e nas Ciências”, promovido pela Reitoria da UP, com uma edição especial da Newsletter da FMDUP dedicada ao tema “Mulheres na Medicina Dentária”.

Ciclo “ E Contudo, Elas Movem-se! Mulheres nas artes e nas Ciências”

Em 1889, licenciava-se a primeira mulher numa universidade portuguesa. Em 1911, votava pela primeira vez uma mulher em Portugal. Em 1944, doutorava-se a primeira mulher na Universidade do Porto.

Cento e trinta anos depois, parecerá consensual a importância que as mulheres desempenham na universidade e na sociedade em geral. E, no entanto, em muitos casos, o seu percurso foi lento e penoso, e de muitas delas, pouco sabemos. Quem são estas mulheres? Quais são as suas histórias? Que obstáculos tiveram de enfrentar?
Partindo da célebre frase que Galileu terá proferido perante o tribunal da Inquisição E pur, si muove!, o ciclo multidisciplinar E Contudo, Elas Movem-se! Mulheres nas Artes e nas Ciências pretende, assim, homenagear o contributo de várias mulheres em diferentes áreas profissionais, bem como dar conta da sua história e do gesto de rebeldia que foi o de desafiarem e ultrapassarem os limites culturalmente associados ao seu sexo.

Este evento multidisciplinar, organizado por Ana Luísa Amaral, Maria Clara Paulino e Marinela Freitas, decorrerá de 10 de setembro a 29 de outubro de 2019, em vários espaços na cidade do Porto. O programa, que inclui debates, mesas-redondas, ciclos de cinema, exposições, conferências, programas de rádio e lançamentos de livros, mostrará como apesar de tudo e contra tudo, as mulheres, muitas vezes, se moveram. E afinal, com elas, também o mundo.

Acesso ao programa:

Convidamos todos a estarem presentes!

A FMDUP decidiu homenagear o contributo da Professora Maria Helena Fernandes pela sua dedicação exemplar à investigação na Medicina Dentária

Maria Helena Fernandes é licenciada em Farmácia pela Faculdade de Farmácia, U. Porto (1980), e obteve o grau de Doutor no Imperial College of Science and Technology, Universidade de Londres, UK (1986). Desde 1998, é professora catedrática na Faculdade de Medicina Dentária da U. Porto (FMDUP). É responsável pelas unidades curriculares de “Farmacologia e Terapêutica” do Mestrado Integrado em Medicina Dentária da FMDUP e de várias unidades curriculares do Curso de Doutoramento em Medicina Dentária da FMDUP. É Diretora do Curso de Doutoramento em Medicina Dentária da FMDUP. É coordenadora do Laboratory for Bone Metabolism and Regeneration (www.bonelab.net), FMDUP. As áreas de investigação em curso focalizam-se no metabolismo e regeneração óssea, em situação fisiológica e na presença de patologia sistémica, utilizando modelos in vitro, ex vivo e in vivo. A citocompatibilidade/biocompatibilidade de biomateriais para aplicação no tecido ósseo constitui a linha de investigação mais dinâmica do laboratório e envolve uma rede de colaborações com instituições nacionais e internacionais. É co-autora de mais de 180 artigos científicos citados no SCI e com arbitragem científica, e orientou/co-orientou 20 teses de doutoramento e 22 teses de Mestrado. É investigadora do LAQV/REQUIMTE (Laboratório Associado para a Química Verde/Rede de Química e Tecnologia), sendo responsável pela linha temática “Health and Wellbeing”.

Professora Doutora Maria Helena Fernandes

DESAFIO “ARTE NA FMDUP”

Retrato da Professora Doutora Maria Helena Fernandes, pintado por Luís Paulo Leite Mota Almeida, Estudante do MIMD da FMDUP em 2018/2019. Será entregue na sessão a realizar na Reitoria da UP, no próximo dia 22 de outubro, às 18:00 horas. 

Desenho Kseniya Nialepka, Estudante de 3º ano do MIMD da FMDUP. 

Professora Doutora Fátima Vieira

Mensagem da Vice Reitora da Cultura da UP, Professora Doutora Fátima Vieira

A Memória Cultural da Universidade

Em How Societies Remember (Cambridge University Press, 1989), Paul Connerton descreve a forma como são construídas as memórias coletivas da sociedade. Revisitando o texto fundador de Maurice Halbwachs[1], Connerton explica que as nossas memórias se inscrevem em contextos sócio-culturais, dependendo de um conjunto variado de fenómenos: recordações individuais, recordações de grupo (família, amigos) e recordações coletivas (incluindo recordações nacionais, muitas vezes assentes em tradições “inventadas). As memórias são sempre construídas a partir do ponto de vista de um grupo, que seleciona e hierarquiza os acontecimentos. É assim criada uma narrativa que assinala processos de similaridade e de continuidade e confirma o sentido de identidade desse grupo

O passado, sublinha Connerton, não “existe” – é algo que é constantemente reconstruído a partir de memórias selecionadas e hierarquizadas em função das necessidades do presente. É, por isso, importante perceber-se, defende Connerton o que, no passado, é recordado, e como é recordado.

Convoco a explicação de Connerton a propósito do Ciclo E Contudo, Elas Movem-se, organizado pelo Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa em parceria com a Reitoria da Universidade do Porto, e que conta com o contributo de diferentes faculdades. O Ciclo, que integra 25 eventos, propõe-se contribuir para a criação de uma nova narrativa para a Universidade do Porto que resolva o problema identificado de alguma amnésia cultural em relação ao papel que as mulheres têm vindo a desempenhar nas Ciências, nas Artes e nas Humanidades.

Cada um dos eventos que integra o Ciclo constitui-se como um local de memória no sentido proposto pelo historiador francês Pierre Nora, isto é, assume-se como um alicerce forte para a construção desta nova narrativa que pretende evidenciar processos de continuidade na presença das mulheres na Academia e o seu contributo para o desenvolvimento das áreas em que atuaram.

A participação da Faculdade de Medicina no Ciclo – com um debate sobre o papel da mulher na história da medicina dentária, a realizar no Auditório da Casa Comum, e a presente Newsletter –, será sem dúvida importante, na medida em que oferecerá novos dados ou recordará episódios esquecidos que proporcionarão uma perceção diferente do passado e permitirão a construção de uma identidade forte, que incluirá também a presença das mulheres.

Os organizadores deste Ciclo têm plena consciência de que estes são apenas atos simbólicos. São, contudo, essenciais para a formação de uma identidade académica e cumprem, por isso, uma importante função mnemónica, contrariando o processo de amnésia coletiva que, demasiado frequentemente, se instala na sociedade em relação ao papel que as mulheres cumpriram no passado – e têm ainda a cumprir, no presente e no futuro.

A Comissão Organizadora deste Ciclo está particularmente grata à Prof.ª Doutora Marta Resende pelo entusiasmo com que abraçou o desafio que lhe foi feito no sentido de contribuir para a construção de uma nova narrativa para a área da Medicina Dentária, e que será instrumental para a (re)construção da Memória Cultural da Universidade do Porto.

[1] Les Cadres Sociaux de la Mémoire, Paris, Presses Universitaires de France, 1952 (publicado originalmente em Les Travaux de L’Année Sociologique, Paris, F. Alcan, 1925).

A Mulher Médica Dentista
Início da História

A desigualdade entre géneros afastou, ao longo dos séculos, a mulher da profissão de médica dentista e da linha da frente da investigação científica. No século passado, a mulher não tinha um papel social definido, não possuindo direito ao voto, nem direito ao trabalho remunerado, dedicando-se, exclusivamente, à família e ao lar. No que respeita á evolução científica, esta foi maioritariamente desenvolvida por homens, que frequentemente ignoravam o papel da mulher na sociedade, usando a autoridade científica para legitimar hierarquias entre os sexos.

A primeira menção a mulheres na medicina dentária remonta a 1820, quando Levi S. Parmley, de acordo com seu livro “História Natural dos Dentes”, se ofereceu para instruir Senhoras e Senhores Deputados da educação liberal para a prática da Medicina Dentária. Aparentemente, as senhoras não aproveitavam a oportunidade e o tema continuou inédito até muitos anos.

A primeira mulher a praticar a Medicina Dentária nos Estados Unidos foi, provavelmente, a Dra. Emeline Roberts Jones, em 1864. Foi casada com um dentista (foi sua assistente) e estudou em dentes extraídos para ganhar experiência. Após a morte do marido iniciou a sua prática.

Emeline Roberts Jones

Lucy Hobbs Taylor foi considerada a primeira mulher a concluir o ensino académico com uma licenciatura em medicina dentária. Nasceu em Nova Iorque, em 1833, numa época em que os papéis das mulheres eram, em geral, limitados a serem mães, professoras ou enfermeiras. Depois de terminar o liceu, Lucy ensinou na escola durante dez anos, em Michigan. Mais tarde, em 1859, mudou-se para Cincinatti, no Ohio, onde se candidatou à Faculdade de Medicina e posteriormente à Medicina Dentária. Ambas as candidaturas foram recusadas apenas por ser mulher. Determinada, no entanto, resolveu estudar particularmente com um dos professores da instituição, e, sem o benefício de um grau atribuído, em 1861, Lucy abriu o seu próprio consultório, sendo conhecida como “a mulher que puxava dentes.” As mulheres, nessa época, foram autorizadas a praticar a Medicina Dentária sem graduação, se supervisionadas por um médico dentista. Depois de quatro anos, recebeu o crédito pelos seus anos de serviço e a licenciatura em Medicina Dentária, em fevereiro de 1866.

Lucy Hobbes Taylor

A primeira mulher a fazer um curso completo de odontologia formou-se em 1869. Tratou-se da Henriette Hirschfeld-Tiburtius, uma alemã formada na Pensilvânia, nos EUA.

Henriette Hirschfeld-Tiburtius

Apesar dessa glória, até ao ano de 1893, apenas 200 mulheres conseguiram o feito de se formarem cirurgiãs- dentistas, ao passo que a esmagadora maioria era composta por homens.

Gradualmente, a Medicina Dentária tornou-se mais popular entre as estudantes mulheres, especialmente as europeias, que, sendo impedidas de frequentar as escolas dos seus próprios países, emigraram para os EUA. As faculdades de Medicina Dentária não facilitaram na admissão de estudantes mulheres, no entanto, após 1880, elas foram aceites.

Após 1945, houve um declínio no número de mulheres dentistas, chegando à proporção de 1 mulher para 55 homens na prática da Medicina Dentária. Isso pode ter estado relacionado com os elevados padrões de admissão, com o aumento do custo da educação, ou com interesses em outras áreas de atividade. No entanto, o futuro da mulher na Medicina Dentária foi promissor para aquelas que tiveram interesse, habilidade e determinação para o sucesso.

O final da década de 70 e início dos anos 80 marca o início da inversão, em número de profissionais, das mulheres sobre os homens na Medicina Dentária. Em 1970, o contingente feminino era de 20,85% do total; em 1980, 30% e em 1990 o contingente feminino passou a 51,04%.

Na década de 90, as mulheres superaram os homens em escolaridade. Facto explicado pelo maior acesso da mulher ao mercado de trabalho.

Galeria de Imagens

Referências
https://ohigienistaoral.com/2012/12/14/a-mulher-medica-dentista-inicio-da-historia/

https://emilytaylorcenter.ku.edu/pioneer-woman/taylor

http://www.historyofdentistry.net/famous-dentists/timeline-of-women-in-dentistry/

https://mypenndentist.org/2016/03/18/a-history-of-women-in-dentistry/

Mulheres na Medicina Dentária em Portugal

Em Portugal, a emancipação da mulher foi uma das maiores conquistas do 25 de Abril de 1974. O direito ao voto universal foi conquistado e, desde então, os horizontes profissionais foram alargados e o universo feminino viu-se livre de muitas barreiras até então impostas. As mudanças não foram silenciosas e parece que longe vai o tempo em que a mulher não tinha os mesmos direitos sociais e horizontes profissionais semelhantes, quando comparado com o homem. A legislação portuguesa não permite qualquer diferença nos direitos e nas oportunidades entre homens e mulheres. Verifica-se um aumento do número de mulheres no mercado de trabalho e do seu acesso a posições de poder e uma melhoria do seu nível de educação e formação profissional. Para além da legislação portuguesa proteger a demanda da igualdade de direitos e oportunidades para o homem e mulher, a dimensão sociocultural evoluiu de igual forma e permitiu, de forma consensual, a integração da mulher em praticamente todas as classes académicas, bem como a sua participação activa nas diversas vertentes de organização da classe profissional.

Em Portugal três mulheres faziam parte do primeiro grupo de 20 recém- licenciados em medicina dentária na primeira Escola de Medicina Dentária, no Porto, em 1976. Uma delas, a Professora Doutora Ana Paula Macedo ainda hoje é docente de Odontopediatria na FMDUP. A primeira doutorada em Medicina Dentária da FMDUP  foi a Professora Doutora Maria Cristina Pinto Coelho Mendonça de Figueiredo Pollmann, em 1997.

A OMD, em 2016, na celebração das 25 edições dos seus congressos anuais, homenageou 2 mulheres, em 25 homenageados. Estas homenagens são referentes aos anos mais recentes, o que significa, certamente, uma viragem nas mentalidades.

Referências

Livro 10 anos da OMD
Livro 20 anos da OMD

Números
da OMD 2019

Segundo o relatório da OMD, de 2019, o número de profissionais de medicina dentária tem vindo sempre a aumentar. Nos últimos 10 anos quase duplicou (passou de 6595 para 10653). Obviamente que o número de estudantes nesta área teve de aumentar. No mesmo relatório é referido, igualmente, que a contribuição dos membros do sexo feminino, no total de membros da OMD, é de 60.2%. Relativamente aos anos anteriores, como se verifica pela evolução da taxa de feminização, o peso dos membros do sexo feminino tem sido crescente, atingindo hoje os 151%.

Agregado à crescente taxa de feminização na profissão de médico dentista em Portugal, percebe-se que existem diferenças estatisticamente significativas no comportamento das variáveis género e grupo etário. Se, por um lado, há mais mulheres com idades até aos 50 anos, por outro lado, há mais homens a partir desta idade.

Referências
OS NÚMEROS DA ORDEM – OMD 2019

CURIOSIDADES

Aristóteles, em 384-322ª,C, na Grécia, escreveu sobre dentária, incluindo a erupção dos dentes, tratamento da cárie dentária e a doença das gengivas, extracção de dentes com fórceps e a utilização de fios para estabilizar dentes e mandíbulas fraturadas. Acreditava que os homens, ovelhas, cabras e porcos tinham mais dentes que as mulheres.
Já no período entre 1533 e 1603, em Inglaterra, a Rainha Elisabete preenchia os espaços dentários com panos, por forma a melhorar a sua aparência em público. Na China, por exemplo, no início do Séc. XVIII, as mulheres de classes sociais mais altas pintavam os seus dentes de preto como sinal de fidelidade. Por aqui se percebe a importância que desde sempre foi atribuída aos dentes, do ponto de vista estético e, indiretamente, no ambiente social.

A Santa Apolónia viveu no tempo do império romano por volta do ano 249. Era o tempo do imperador Felipe, que foi derrotado por Décio. Este tornou-se um dos mais cruéis perseguidores dos cristãos. Apolónia era filha de um rico magistrado de Alexandria, cidade importante do Egito, então sob o domínio do império Romano. Na sétima investida do Imperador Décio contra os cristãos, ela foi capturada. Como Décio sempre fazia, Apolónia foi obrigada a renunciar a sua fé cristã pelas forças do império. Além disso, foi obrigada a prestar culto aos deuses romanos e a obedecer o Imperador. Santa Apolónia, porém, firme na fé e tomada por uma coragem impressionante, negou-se a obedecer. Por isso, ela passou a sofrer terríveis torturas em praça pública, diante de todo o povo, que se impressionava com tudo o que via. Arrancaram-lhe os seus dentes com pedras afiadas. Mesmo sofrendo a dor lancinante de ter seus dentes fraturados, ela não renunciou à sua fé em Jesus Cristo. Ao ver sua firmeza na fé, os carrascos fraturaram-lhe a face com pancadas. Em seguida, foi condenada a morrer queimada. Depois de sua morte, seus dentes foram recolhidos e levados para vários mosteiros. Existe um dente e um pedaço de sua mandíbula no Mosteiro de Santa Apolónia em Florença, Itália. Por esta razão, é popularmente considerada como a padroeira dos dentistas e daqueles que sofrem de dor de dente ou outros problemas dentais. Depois de todos os sofrimentos pelos quais tinha passado, Santa Apolónia ainda reunia forças para mostrar a todos sua fé inabalável. Assim, mesmo amarrada, ela própria se lançou na fogueira onde morreria, dizendo que preferia a morte a renunciar sua fé em Cristo Jesus. Deus, porém, protegeu Santa Apolónia e ela escapou ilesa da fogueira. Muitos dos presentes se converteram ao presenciar este fato. Então os algozes deram-lhe vários golpes de espada e deceparam-lhe a cabeça. Santa Apolónia faleceu no ano de 249.

Referências
Une histoire de l’art dentaire”. Christophe Lefébure. Éditions Privat – 2001


Historia de la odontologia Malvin E. Ring
Histoire Ilustree de L´art Dentaire M. Dechaume,P. Huard 1977,

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ENTREVISTAS

Decidimos perguntar a algumas mulheres e homens que se destacam/destacaram na Medicina Dentária a sua opinião sobre o papel da mulher na sociedade e o seu envolvimento na profissão.

Diretor da FMDUP

Miguel Pinto

O género feminino constitui-se, atualmente, como a maioria dos estudantes da nossa faculdade, representando naturalmente o futuro da atividade clínica da medicina dentária em Portugal. Em Portugal, e em particular no norte, sempre existiu numa mesma: a mulher, a mulher mãe, a mulher esposa e a mulher profissional, conferindo competências, capacidades e perspetivas únicas às mulheres em aspetos fundamentais da investigação como: organização, rigor e imaginação.

Somos um país em que as mulheres se destacam um pouco em todas as áreas e a ciência não foge à regra. Aliás, segundo um estudo da OCDE (“A Procura da Igualdade de Género”), o nosso país é um exemplo. As portuguesas são as que mais optam por estudar ciências e tecnologia, entre outras áreas (57% face à média mundial de 39%). E a medicina dentária não é exceção. É notória a feminização da profissão ao longo dos anos e o distinto desempenho das médicas dentistas, nas diversas competências da medicina dentária. De acordo com Os Números da Ordem 2019, a taxa de feminização subiu para 151%. Cerca de 60% dos membros da OMD são do sexo feminino e apresentam uma média de idades inferior à do sexo masculino (37 para 42). Uma realidade espelhada também nas universidades, em que a percentagem de mulheres a frequentar o mestrado integrado é superior e ainda mais significativa. Embora não tenhamos dados sobre os contributos das mulheres, é evidente que parte do contributo para a evolução da profissão é feminino e é com orgulho que vemos tantas mulheres a notabilizarem-se, tanto na atividade clínica, como na investigação. Por exemplo, ainda há poucas semanas demos nota de uma jovem médica dentista que alcançou o 1º lugar do “Junior Robert Frank Award 2019”, no Congresso Anual da Divisão Europeia (CED). Portanto, o potencial, a visão e o interesse das mulheres pela medicina dentária é uma mais-valia para a valorização e evolução da profissão e dos cuidados prestados, onde a sociedade definitivamente sai a ganhar.

Bastonário da OMD

Orlando Monteiro

Professor Associado

Manuel Fontes de Carvalho

Sou um dos fundadores da Medicina Dentária em Portugal! Antes mesmo de ser aluno do primeiro Curso, estive diretamente envolvido na criação do mesmo pois era representante dos Estudantes no, então, Conselho Diretivo da Faculdade de Medicina do Porto, de quem partiu a iniciativa de desafiar algumas personalidades da Estomatologia do Norte a avançar com a Licenciatura em Medicina Dentária.
Na época, e nas décadas duas, ou três, décadas seguintes, a Licenciatura era frequentada maioritariamente por Estudantes do sexo masculino. Contudo, a partir do momento em que a seleção para a entrada no Ensino Superior passou a ter em conta as atuais regras, a situação inverteu-se. Passamos a ter mais Estudantes do sexo feminino. Tal como em Medicina, as mulheres passaram a ser exponencialmente maioritárias e, hoje, mesmo sem recurso a números concretos, é fácil perceber que nas profissões Médicas há uma clara tendência para a supremacia das mulheres, mesmo em Especialidades onde os homens preponderavam, como é o caso da Medicina Dentária.
Se isso tem a ver com uma maturidade intelectual mais precoce, com maior sentido de responsabilidade, ou com outra qualquer razão, dispenso-me de opinar mas, a realidade é patente e parece não ter retorno.
Comparando o desempenho, enquanto Estudantes, não me parece haver grandes diferenças entre os dois sexos. Parece sim, existir mais interesse pela investigação e por áreas em que a destreza manual é menos exigente. Mesmo assim temos em diversas subespecialidades da Medicina Dentária, Médicas Dentistas com brilhante desempenho, reconhecido nacional e internacionalmente. São os casos da Implantologia, da Ortodontia, da Periodontologia, da Cirurgia, da Dentisteria, da Odontopediatria, etc!.
Estas evidências serão suficientes para sustentar a tese da influência das mulheres no desenvolvimento da Medicina Dentária, como ciência ou como atividade clínica?
Claramente sim!
Numa profissão que era percebida como essencialmente de desempenho masculino, as mulheres estão a provar o contrário e acompanham a sua evolução de forma positiva e entusiasta.
Não conheço o porquê desta realidade. Talvez a ciência a possa explicar mas, no atual sistema e mesmo em Países onde o método de acesso ao Ensino Superior é diferente do português, a realidade é semelhante!
Será que estamos no dealbar da tal era matriarcal?

Uma característica que realço é a perseverança e determinação , comum a muitas mulheres que se destacam na Medicina Dentária. A atenção aos pormenores, fundamental na procura do diagnóstico correto aliada ao estudo mais aprofundado das matérias coincidem na personalidade feminina.

PROFESSORA ASSOCIADA
COM AGREGAÇÃO DA FMDUP

Irene Graça Azevedo Pina Vaz

PRESIDENTE DO CONSELHO DE REPRESENTANTES DA FMDUP

Mário Jorge Rebolho Fernandes da Silva

Confesso que fiquei indeciso se deveria responder a este questionário.
Tudo porque desde há muitos anos que deixei de distinguir o contributo para a medicina dentária, como para tudo o resto, baseado no género.
Pois bem, decidi responder mas reafirmando que esta questão é irrelevante, no meu ponto de vista.

A mulher tem vindo, ao longo dos tempos, e fruto de uma evolução sócio-cultural a assumir um lugar de destaque na sociedade. Prova disso é o aumento significativo de profissionais do sexo feminino na medicina dentária, que até 1855 era exclusivamente exercida por homens. Devido às evidentes diferenças entre os dois sexos, considero uma mais valia para a classe poder contar com profissionais com distintas características que conferem uma natural vantagem no trajeto profissional. Poder-se-à considerar que existe, por parte do sexo feminino, uma maior afinidade por áreas ligadas às crianças e à família. No entanto, considero que a excelência de um(a) médico dentista não está de todo relacionada com o género. Fundamental é, isso sim, que qualquer profissão possa contar com elementos de ambos os sexos permitindo, assim, usufruir das idiossincrasias de cada um.

Mestre de Cirurgia Oral e Assistente Convidado da FMDUP

Tiago Pinto Ribeiro

Professora Auxiliar convidada da FMDUP

Inês Guerra Pereira

Segundo os números da Ordem dos Médicos Dentistas deste ano 60,2% dos membros com inscrição ativa, são mulheres. Relativamente aos anos anteriores, o peso dos membros do sexo feminino representa um crescimento de 151%. Além disso 67% dos estudantes inscritos, este ano letivo, no 1.º ano de Medicina Dentária da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto (FMDUP) são mulheres. É preciso recuarmos aos anos de 1800 para encontrarmos a primeira mulher a receber o título de médica dentista.

Durante muito tempo a prática clínica foi limitada a mulheres e crianças. Mas estes números são o reflexo do que se passa no mundo. De forma unida e ativista as mulheres têm-se feito ouvir. Não só na profissão, como também na política, na cultura e na sociedade. É exemplo a jovem Greta Thunberg, uma voz feminina que reflete a força das novas gerações, move multidões e incomoda decisores mundiais. Aos poucos as mulheres superam provas, ganham força e assumem cargos de liderança. Tudo isto entre os deveres domésticos, a gravidez ou amamentação que muitas vezes obriga a uma pausa na carreira.

E embora a medicina dentária seja uma profissão técnica, as mulheres já demonstraram que não é preciso força masculina para tirar um dente, colocar um implante ou mesmo dominar os computadores na medicina dentária digital. O ano passado, no congresso da Ordem dos Médicos Dentistas, tive o prazer de conhecer Kathryn Kell, a presidente da Federação Dentária Internacional (FDI). Uma mulher simpática, determinada e inteligente e das poucas que assumiu cargos de liderança na medicina dentária.

Uma verdadeira inspiração para continuar a ganhar espaço neste mundo que em tempo foi apenas dos homens e, para cada dia, representar ainda melhor a nossa classe!

Depois de muitos anos em que a Medicina Dentária foi uma profissão eminentemente masculina, tem-se assistido a uma alteração deste paradigma e atualmente são as mulheres que maioritariamente a exercem. Ao mesmo tempo, a participação científica das mulheres na evolução da Medicina Dentária tem sido significativa. No exercício da profissão, as maiores repercussões deram-se em termos da necessidade de implementar horários de trabalho mais flexíveis e na valorização da forma de relacionamento com os pacientes bem como na organização, design e apresentação do consultório dentário. Para além do exercicio generalista, é notória a atenção especial dedicada à odontopediatria, mas também tem sido muito valiosa a contribuição feminina nas outras áreas/especialidades da profissão. Já na área científica, encontramos mulheres brilhantes em determinadas áreas da investigação que muito têm contribuido para o desenvolvimento da Medicina Dentária, mas a sua participação ainda pode ser muito potenciada. 

Professor Associado com Agregação

Paulo Ribeiro de Melo